Mostrando postagens com marcador nikole. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nikole. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

No caminho da Dona Esperança

(Escrito hoje, mas vem sendo trabalhado há uma semana.

Terceiro texto da sequência da Jornalista. Primeiro: Entrevista com o Destino. Segundo: As portas da felicidade).

 

Nossa Jornalista dava passos apressados na galeria iluminada, rodeada de vitrines, muitas vazias, procurando as chaves de casa dentro da bolsa, que carregava no ombro esquerdo. Caminhava sem olhar para frente, sabendo que era a única figura atravessando o grande salão, que já fora um grande centro comercial. Até que, involuntariamente, virou a cabeça para o lado esquerdo, reflexo de ter ouvido um barulho de tecido pesado roçando. Nesse relance viu uma figura exótica: uma senhora de cabelos grisalhos até os ombros, ostentando um chapéu verde escuro de abas largas, compondo uma circunferência de largo raio ao redor da cabeça da senhora. O chapéu carregava um arranjo de flores do lado direito e nas bordas das abas um fino e curto véu branco, que deixava transparecer apenas a silhueta de um rosto aparentando aproximadamente setenta anos humanos.

A jornalista parou seu andar, mas continuou com os cotovelos suspensos e os dedos das mãos na abertura da bolsa, boquiaberta a observar e tentar reconhecer aquela interessante figura. Já a conhecia de algum lugar... Reparou no enorme e elegante sobretudo que a senhora vestia, verde em conjunto com o chapéu. A senhora era mais alta que a jornalista, principalmente com seus sapatos de salto, não muito alto, pretos. Parecia também ser mais encorpada, porém o olhar atento, sempre à procura de manchetes, notou que era ilusão causada por um volume que a senhora carregava debaixo do abrigo, abraçando contra seu corpo com o braço esquerdo.

Quase certa de seu palpite a jornalista correu ao encontro da senhora, que andava devagar e cautelosa, na direção oposta à da jornalista, olhando para ambos os lados com desconfiança e de braços cruzados. Disse, com um entusiasmado sorriso no rosto:

- Dona Esperança, a senhora por aqui!

A senhora Esperança, tomada de susto virou-se para a Jornalista. Durante alguns segundos somente a encarou, surpresa, para logo tirar o véu que cobria seu rosto, acomodá-lo com a mão direito sob a aba do chapéu e esboçar um caloroso sorriso em seus lábios pintados de rosa choque:

- Querida! Assim me mata de susto...

- Quanto tempo que não vejo a senhora! – a Jornalista abraçou dona Esperança com carinho. A senhora retribuiu somente com o braço direito, pois o esquerdo continuava mantendo o abrigo fechado e apertado junto ao corpo. A Jornalista deu um passo para trás, olhou no fundo daqueles sábios olhos verdes e arqueou as sobrancelhas.

- Do que a senhora está com medo? Está fugindo de algo? – A senhora esperança apertou os olhinhos em direção a Jornalista e deu um sorriso maroto.

- Muito atenta, você. Não estou fugindo, estou só apressada. Sabe que nesses tempos de violência procuro não me expor e ficar andando por aí, dando sopa. O Amor levou uma paulada na cabeça, lá na Síria e está se recuperando há alguns meses... A Compaixão está cuidando dele e assim que a notícia correu o Perdão e eu decidimos tirar umas férias e andar por lados mais tranquilos, verificar como estão as coisas aqui no continente sul-americano... O único que anda sem descanso e sem medo é o Destino. Você o conhece, não adianta tentar aconselhar...

- Entendo... Entendo tudo, dona Esperança. Fico feliz da senhora decidir nos visitar, mas fico triste da senhora não poder estar onde mais precisam, sabe?

- Eu tentei, jovem, juro que tentei. Mas é tão difícil ficar em um lugar em que todo dia me matam um pouco... É bem difícil eu sobreviver e morar junto com a fome, a pobreza, o ódio. Mas a grande vilã que me atormenta ultimamente é a intolerância.

- Aí estão coisas que nunca quero encontrar. Vou deixa-la ir, então, não devo tomar seu tempo. É sempre muito bom vê-la, dona esperança. Espero que as coisas melhorem para todos nós, não é mesmo? E feliz ano-novo!

- Obrigada, querida. O mesmo para você. Tudo de bom e, se me der licença, preciso partir.

Apressada, a dona Esperança deu um estalado beijo na bochecha da Jornalista e saiu acenando um adeus com a mão direita e com o braço esquerdo contra o corpo, da mesma forma que antes. Tão logo a Jornalista tornou a seguir seu caminho, ouviu um barulho vindo da dona Esperança. Algo como um miado abafado. Virou-se novamente para a senhora e deu alguns passos largos para recuperar a distância que havia surgido entre as duas.

- Ainda não, dona Esperança! Se me perdoa, o que a senhora carrega aí?

A Jornalista disse decidida, com a mão direita sobre o ombro direito da dona Esperança, de forma decidida. Ainda que não fosse para a grande reportagem de sua vida, sua curiosidade não aguentava. E era isso que a fazia uma boa profissional. A curiosidade e a audácia. A dona Esperança virou e suspirou.

- Sabia que estava sendo fácil demais escapar da senhorita... – baixou os olhos, sorriu e caminhou para um banco de madeira próximo. A Jornalista foi atrás. Assim que estavam sentadas, lado a lado, com os joelhos apontados um em direção à outra, a dona Esperança, segurou os pulsos da Jornalista, aproximou o rosto do dela, olhou para os lados e disse em voz baixa, confidenciando:

- Promete que não vai contar para ninguém, minha filha?

- Nunca conto, dona Esperança.

- Pois bem. Olhe só. – com um sorriso divertido a dona Esperança abriu o abrigo. De lá tirou pequenas criaturas peludas e redondas, pequenas como a palma da mão. Várias delas, de várias cores, de pelo macio. Havia certo movimento nelas que fazia perceber que estavam vivas, mas não se via nenhuma característica animal como rabo, patas, focinho ou algo do tipo. Mas eram bem macias e cheirosas.

- Que gracinha, dona Esperança! A senhora está criando Expectativas!

- Sim, querida. Vou espalhar algumas por aí, não posso me ausentar de todo, não? Principalmente nessa época de fim de ano, natal, ano novo...

- Elas são lindas... Mas me parecem um pouco perigosas, não?

- Um pouco. Essas são apenas filhotes, que vão crescer dependendo de quem cultivá-las. Elas podem ficar num tamanho saudável, ou virarem monstros, maiores do que a própria causa deles ou de que seus donos... E aí sim temos um problema.

- Hum... Qualquer um pode ter?

- Pode. Mas deve criar com muito cuidado. Quer uma para você?

Mais uma vez deliciada com as descobertas que fazia desse mundo fantástico, nossa Jornalista não podia dizer que estava surpresa. Depois de ter visitado a casa do Destino, ter tido várias conversas francas com ele e conhecido a Esperança do mundo, ela já havia se acostumado a não duvidar de nada. Não havia perdido sua capacidade de surpreender com o mundo, pelo contrário; estava cada vez mais sensível e impressionada com as particularidades desse nosso planeta e da vida. Mas já não encarava nada com estranheza. Estava sempre receptiva.

- Estou pensando. 2014 está chegando, estou tão... Esperançosa! – riu com a situação. Falar que estava inundada de um sentimento enquanto conversava com o mesmo não era uma situação comum, nem mesmo para ela.

- Pense mais um pouco. Quando estiver pronta você saberá o momento e eu também. É só esperar minha visita. Ufa! Estou feliz de compartilhar esse segredo com alguém!

- E eu de descobrir essa maravilha! Quem diria, eu, cheia de expectativas de outras pessoas. Tão palpáveis...

- Sim. Mas agora, querida, preciso mesmo ir...

- Claro! Agora realmente extrapolei. Obrigada, dona Esperança. Por tudo. – a senhora segurou as mãos da Jornalista entre as suas, deu um caloroso sorriso enquanto olhava nos seus olhos. – Até a próxima. - Soltou, guardou as Expectativas dentro do casaco, abaixou o véu e saiu com seu passinho cauteloso, de braços cruzados, olhando para os lados.

A Jornalista continuou sentada, olhando a senhorinha ir, até sumir no horizonte. Pensou nas tentadoras expectativas. Será que umazinha faria mal?

Pegou o celular e decidiu dar um telefonema.

Veria a dona Esperança bem antes do que as duas pensavam.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A alegria

(Escrito hoje)

Minha mãe, às vezes, me diz que eu estou com um semblante triste.
Não é isso.
É que a alegria que me preenche agora é uma alegria mansa, pacífica e sincera que, assim como um amanhecer de verão, chega bem cedo aquecendo sem fazer alarde. Assim como o sol ela já não precisa de mais ninguém pra vir, só da grande força da natureza e da minha vontade de ficar ou não na sombra.
E eu não quero. Eu quero esse caminhar tranquilo acompanhado por uma alegria sábia e antiga, que existe desde antes de mim e está aí pra ser descoberta, mais cedo ou mais tarde.

Bom dia!

sexta-feira, 29 de março de 2013

Nostalgia


(Agosto/09)

O velho banco de madeira.
As velhas mãos, dadas.
Os sorrisos, já gastos.
A memória, esquecida.
As juras de amor eterno, cumpridas.

De partir o coração


(Esse eu escrevi pra aula de redação. O primeiro parágrafo a professora que deu. Agosto/09)

O jornal estava dobrado sobre a mesa simples. A toalha limpa, a louça branca, o pão fresco. A faca manchada de sangue permanecia em suas mãos.
A cabeça estava confusa e a visão começava a escurecer, aos poucos.
Deu um último olhar ao redor da cozinha mal iluminada, enquanto cambaleava até a mesa. Limpou a faca e os pulsos com a toalha, jogou o jornal no chão, sobre a poça de sangue que se formara. Ao cair, o jornal se abriu na manchete: "Família Moreira desposa filha caçula".
Aos poucos, as letras do jornal ficavam úmidas do sangue, e seus olhos, úmidos de lágrimas, observando a ilustração de uma bela moça, se tingir de vermelho. O seu sangue.
A perda e a dor o fizeram tremer. Pegou o pão e jogou, com raiva, num canto sujo do pobre lugar. Talvez o cachorro o achasse. O cachorro que o fez conhecer o amor de sua vida.
Que agora ia se casar, com alguém tão rico quanto, ou até mais do que ela. 
Ela ia ter o que ele não podia oferecer. Pois seu maior tesouro, ele já havia decidido que seria só dela: seu coração.
O jornal já estava encharcado do sangue que insistia em sair do pulso, escorrer pela mão e cair.
Se sentou no banco que ficava embaixo da mesa e, com raiva, atirou a louça na parede à sua frente, depois, deitou a cabeça com a face esquerda diretamente na superfície fria.
Agora que não tinha mais a dona de seu coração, não tinha porque viver. Ela que ficasse para sempre com dois corações!
Em um raro momento há alguns meses, ele sorriu e fechou os olhos. Era bom pensar que ao menos uma parte sua viveria com ela. Era poético morrer assim, por amor.
Aos poucos, a consciência fugiu, para sempre.
Do outro lado da cidade, só seu coração vivia.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Rotina

(Agosto/09)


E empurrou a porta de sempre, no beco de tijolos vermelhos mal-encarado e sujo como sempre.
Sentou-se à mesa de sempre, pediu o de sempre, e olhou ao redor, a decadência de sempre.
Homens e mulheres solitários, sentados distantes um do outro, absorvidos em seus pensamentos. Vidas e mentes que apesar de não se conhecerem, entrelaçavam suas vidas naquele ponto, exatamente, quase toda a noite.
Talvez, fosse a única coisa que os unia. As luzes vermelhas o forçaram a apertar os olhos para observar os detalhes, o homem que limpava o balcão, o bêbado que contava piadas sem graça, as garrafas de bebidas fracas e fortes, santos remédios para dores emocionais.
A fumaça dos cigarros deixava o lugar ainda mais melancólico e opulento. "Mas não surgiu uma nova lei?" Ele pensou. Mas ali, não haviam leis, regras, obrigações. Ali, era seu refúgio, seu universo particular.
Problemas do mundo exterior não o atingiriam, por enquanto.
Com um doce sorriso nos lábios, tirou o cigarro do bolso e acendeu. A música vinda de uma voz melodiosa, uma "velha moça" no palco, cantando uma decepção amorosa, combinava perfeitamente com a ocasião.
Mundo irônico. Ele fugiu para seu mundo, pois ele mesmo havia levado seu mundo de manhã.
Ela havia dito: ou aquilo, ou eu.
Mas ele escolheu viver para sempre preso na sua rotina.

Passagem definitiva

(Fevereiro/2010. Salvo engano, tive que escrever este texto para algum trabalho de escola. Eu amo todos os professores de redação e português que passaram pela minha vida!)

Sol, passos, quarteirão. Sede, água, exaustão. Parque, banco, vertigem. Coração, aperto, dor. Desespero. Multidão, silêncio, escuro. Branco, hospital. Família, notícia, choro, dor. Velório, choro. Gritos, saudades, choro. Rosas, cemitério, despedida. Susto, confusão, luz. Sol, passos, viagem, eternidade. Passagem definitiva. 

Por pedaços

(Março/2010. Originalmente nasceu como letra de música, a melodia está perdida no meio das minhas cifras, um dia eu acho. As quatro primeiras linhas são de um poema do Gregório de Matos que eu espero que seja de domínio público, rs).

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo todo.
E todo assiste inteiro inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
Mas essa minha parte não é todo;
Já que o inteiro sem parte é incompleto.
Mas esse meu incompleto todo
Se dá por satisfeito como parte.
Esse pedaço só quer ser um todo
Pois todo o seu eu roubou minha parte.
Despedaçou e espalhou por toda parte.
O incompleto quis virar inteiro.
O meu inteiro, pedaço e parte
Saindo do seu pedaço completo
Transformou-se em saudade, despedaçado.
Já não quero mais ser uma fração incerta.
Meu todo ficou guardado, escondido.
Naquela parte que ninguém conhece.
O mundo inteiro pode perceber
Que o meu inteiro é a parte que perece.
O que eu seria agora sem você?
Um universo não pode ser desfeito.
Me sinto um pedaço incomestível
Nesse bolo de caos completo.
Completo, incerto, inteiro da parte.
Será que o amor morreu primeiro
Na minha, ou na sua parte?

Cheia das vontades

(Agosto/10)

Já entrei com o espírito nas palavras jogadas sobre mim como um manto, que ressoam mesmo quando não canto.
E o espaço tomado em minha mente é crescente, a verdade, eloqüente.
E é dita por bocas malditas, feridas na alma que não existe mais. E as bocas te levam com elas, te fazem ver-se onde o você sou eu e tudo se une em um só.
E surge a criação, a vontade. A vontade é demente, a vontade é crescente, irradia dos poros e ilumina a pele.
Ela cria esperança, ela traz a bonança, ela puxa o tapete.
Ela delira no meio da madrugada, no meio dos sonhos, te puxa para ela, te encanta.
A vontade corrói, te seduz, diz no pé do ouvido.
E que venha a vontade de palavras, que venham as chuvas de letras, que  venham os poetas assombrar, e assassinar!
Que matem a vontade, vontade de tudo, do mundo, da tradução dos sentimentos, vontade de literatura.
Que matem o amor, que levem a consciência, que façam sofrer. Desde que deixem como lembrança por tudo, os poemas, com as vísceras dos escritores expostas, dizendo tudo o que estava gravado nas entranhas.
Para o resto do mundo tentar imaginar como é.
Ah, a vontade!

sexta-feira, 22 de março de 2013

Patins (editado)

Talvez no futuro tivesse orgulho de declarar que seu primeiro beijo tinha sido em um muro.
Era um dia de semana com cara de feriado. O tempo havia sido suspenso pelo mormaço. A cidade, os quarteirões e ruas estavam silenciosos e vazios. O asfalto recentemente umedecido secava com o calor. O vento carregava grãos de areia e, ao invés de refrescar, irritava.
Era um dia tão triste no litoral paulista, que estava lindo. Mais um dia salgado.
Numa guia estava sentada uma menina com vocação para anjo. Um anjo sem asas e com suor na nuca, culpa dos longos cabelos castanhos. E um anjo com pensamentos pouco divinos. Talvez a única coisa que ainda a identificasse com o céu fosse a vontade de voar. Não era de avião, asa-delta ou balão: tinha que ser sozinha, por si mesma, e sem nada para atrapalhar a vista.
Tomada a decisão, há dias tentava encontrar um modo de matar a vontade antes que ela a matasse. Pensou em bicicleta, patinete, skate, mas foi enquanto andava distraída que encontrou a solução: na casa do vizinho de praia, um par de patins sem dono, sem uso, que parecia estar esperando o momento do encontro desde seu nascimento. Não pensou duas vezes antes de bater palmas e pedir o favor, sem constrangimento: havia demorado muito para encontrar sua alma gêmea, e agora que a tinha tão perto, não abriria mão de jeito nenhum!
E assim começou o sonho. Não sabia andar com as rodinhas, tentaria por instinto. Já estava intrínseco em seu pequeno ser a ânsia de observar o mundo contra a brisa. E naquela tarde abafada, sanaria sua fome de liberdade. Primeiro colocou com dificuldade o pé esquerdo. Apertou os três fechos verdes um por um. O mesmo procedeu com o pé direito. Colocou as mãos na calçada e se ergueu, em uma respiração. Vacilou nos primeiros segundos, mas conseguiu manter-se de pé, imóvel. Alguns centímetros mais alta, permaneceu assim alguns minutos, para adquirir segurança. Arriscou o primeiro passo. Deu certo. Mas não era assim: pelo que via os outros fazendo, devia deslizar... O que pareceu impossível na rua mal asfaltada e em desnível.
Com um suspiro, caiu na realidade. Pessoas, ainda mais meninas como ela não conseguiriam nunca tirar o pé do chão sem o auxílio mecânico. Para evitar estragos, ia se sentar, tirar os patins e colocar o pé no chão. Até que passou um pássaro. Voando, bem longe. E dentro de sua mente, ela escutou o pássaro chamar seu nome, baixinho, em língua de passarinho, que ela sabia falar muito bem, visto que era um anjo perdido nessa terra quente e de asfaltos mal feitos. Então esqueceu que era humana e que tinha pensando em desistir e que devia andar com os pés. Deu um impulso com o pé direito para frente; bambeou, abriu os braços para recuperar o equilíbrio, deu impulso com o outro, e dessa vez chegou bem perto de cair. Continuou impulsionando mais alguns metros, em um vai-não-vai agoniante, até que chegou na calçada do outro lado da rua. Vitória. Por segurança colocou a mão direita na parede e foi se acostumando ao novo meio de transporte. Mudou o rumo. Queria ir à praia.
Em meia hora já adquiriu razoável domínio, e de quando em vez, tirava a mão da parede e seguia sozinha. Quando deu por si, estava longe da parede e de tudo, seguindo pela avenida da orla, com asfalto novo e liso. Não sabe quanto tempo andou, nem por onde. Só se lembra agora, da sensação magnífica de deslizar sobre o chão de braços abertos. Na hora, fechou os olhos e sorriu, sentindo grãos de areia prenderem no cabelo e baterem contra o rosto, sem incomodar. Lambeu o lábio sentindo o sal do mar. De repente, em um solavanco, os pés ficaram atrás do corpo: bateu em uma calçada. Antes de ter tempo de se defender de qualquer coisa, deu de cara em um muro amarelo. Os lábios virgens partiram-se imediatamente, junto com alguns dentes, e um, dois, vários botões de rosa vermelho vivo nasceram em seu rosto e outras partes do corpo.
Seria lindo, se não fosse trágico.

Miojo sabor Namoro

Esse é o momento de colocar a água pra ferver.
Em um dia de semana normal, numa atividade rotineira que é a de andar de metrô em uma grande metrópole. Andar em direção ao trabalho, ao estudo, com sorte ao ócio. Assim como milhões de indivíduos, que repetem milhões de vezes os mesmos hábitos. E na mesma hora de sempre, só mais um indivíduo, você, está em um vagão comum. Até que a vida, que sempre me pega de surprise, resolve te pregar uma peça também.
Em mais um dia qualquer do calendário, você, uma pessoa qualquer, cruza o olhar com outra indiferença humana. E tudo faz completamente sentido. Todas as generalizações tornam-se particularidades: era aquele dia, naquela hora, naquele trajeto.
Por instantes, o desconhecido (a) mantém o olhar nos seus também; é um mergulho recíproco. Como se toda a sua existência só tivesse se sustentado para aquele momento. Mesmo sem saber qualquer coisa sobre o outro ser, a sua mente já traça mil perfis possíveis para ele. E mil histórias de como seria se um dos lados tivesse a coragem de se comunicar.
Não é preciso mais nada além desse contato para que se saiba que aquele perfil encaixa perfeitamente com o seu. Nada foi, nada é por acaso.
Agora, começou a cozinhar.
Surgiu a dúvida que torce o estômago: ir ou não até lá? Transformar os devaneios em realidade ou não? Descobrir a verdade e decepcionar-se ou não? Um casal de enamorados tão bonitos, que se amam de longe, sem saber de nada, sem preconceitos e tragédias. Tarde demais. É a sua estação. Um suspiro e você desce, sem muita dor na consciência e sem olhar pra trás.
Vai subindo as escadas enquanto saboreia esse tempero de romance-instantâneo.
Bom apetite.

Achados

Eu tava quase ma achando gente. Secando e limpando toda a sujeira de uma brisa meio forte que passou faz muito tempo e trouxe impurezas do mundo aqui pra dentro. Quase fechei a janela. Me dirigi a ela, de mãos abertas e coração fechado, mas aí, vi o sol. Ele entrou, sentou, me abraçou e aconselhou. Deixei tudo aberto. E o tempo foi passando, só percebi pela leve dança das cortinas. Eu já não me importava mais de limpar, expulsar alguns incômodos e inesperados restos. Achei que tudo estivesse seguro e abri a porta também. Para quê? Mais uma vez a brisa veio, fraca, mas bagunçou me cabelo, tapando minha visão, me deixando perdida e meio cega num tiroteio inofensivo de sujeirinhas, marquinhas bobas de gente boba. Eu tô com medo de ir até a porta, ir até a janela. Tenho medo de fechar para esses machucados e impedir também que outros raios de sol venham.
Que essas impurezas não me faça impura também.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Certos desígnios do universo (ou dos humanos)

Parabéns à você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida. Pode ser que não seja seu aniversário, mas 27 de janeiro de 2012 é uma data única e querida.
Querida por algum desígnio do universo, ou por alguma entidade superior que o rege ou pela ausência de crença, de fé e de procura.
Elas quiseram que minhas palavras chegassem até você.
De que maneira, não importa. Aonde, como estamos, quais os sentimentos que nos envolvem nesse momento? Tampouco.
Se isso vai fazer diferença na sua vida? Não sei. Só desejo que seja bom.
O que posso desejar é um bom dia. Uma boa manhã, uma boa tarde, uma boa noite, com bons sonhos num bom sono.
Uma boa sorte.
E se por acaso algo te fizer esquecer de como tudo pode ser bom, que você se lembre disso. Tudo pode e tem que ser bom. É só não deixar certos desígnios do destino (um sacana), ou dos humanos ou de qualquer coisa que mande em qualquer coisa que seja a vida apagar da tua lembrança que tudo deve ser bom.
Que seja bom enquanto dure.
Porque "hoje eu só quero que o dia termine bem"...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ao Amor nos Tempos de Cólera

Quem me conhece sabe que meu passatempo favorito é ler. Sempre digo (quase com orgulho) que nunca me apaixonei por ninguém. Mas os livros, esses me puxam pelo ventre. Amei muitos.
Sofri com Elizabeth os preconceitos sociais do século XVIII em "Orgulho e Preconceito".
Amei de um modo puro com Angélica, em "O Sonho", de Émilie Zola.
Morri com Romeu, Julieta e Werther nas obras de Shakespeare e Goethe.
Consolei Frankenstein e "O Fantasma de Canterville", o primeiro, criado por Mary Shelley, o segundo, fruto da inspiração maravilhosa de Oscar Wilde.
Traí com "Madame Bovary". E fiquei na dúvida em "Dom Casmurro".
Malandreei junto com o Leonardinho, em suas "Memórias de um Sargento de Milícias".
Viajei com Saramago no "Conto da Ilha Desconhecida".
E quantas vezes não me debrucei sobre Agatha e Doyle para desvendar os crimes impostos a Poirot e Holmes.
Mas, para encurtar a conversa que já ficou longa demais (não teria como eu contar como me senti com cada livro que li. Felizmente, foram muitos), vamos a quem interessa:
Minhas tripas foram arrancadas por Gabriel García Márquez em "Crônica de uma Morte Anunciada".
Em um momento de carência estava percorrendo as estantes da biblioteca quando me deparei com o título interessante, em dourado na capa de couro vinho do livro. O tipo que me atrai. Sem pensar duas vezes, emprestei uma das obras que me mudaria um pouco (assim como todo o livro). Apaixonei-me assim, por García e seu jeito de escrever.
Isso foi há muitos meses atrás. Recentemente, durante mais uma crise, saí atrás de meu vício. O tempo escasso me obrigou a entrar em um período indesejado de abstinência. A literatura me fez falta, mais do que a comida ou o ar que respiro.
Não sabia direito com quem iria dormir, dessa vez. (Veja bem o que quero dizer: sempre leio antes de dormir, para permanecer com a história em meus sonhos). Não estava com um tipo pré-definido. Na biblioteca, optei por um clássico. Romântico ou dramático de preferência.
Entrei no corredor de Literatura portuguesa e Latina. Debaixo de um braço peguei um Saramago sem hesitar; no outro, queria algo diferente e desconhecido. O acaso me levou à seção do meu querido e pouco explorado Gabriel. Um título me chamou a atenção: "O Amor nos Tempos do Cólera". Já tinha ouvido falar muitas vezes, mas nunca havia imaginado que era do meu atual pretendente. Peguei, sem medo de ser feliz.
Com os dois em casa, decidi começar pelo mais curioso: Gabriel.
Mergulhei nas surpresas que me esperavam, enrolei-me em cada teia do enredo, e percebi que o livro tinha vindo no momento exato (como todos os livros da minha vida).
Voltei a pensar no amor, que há tempo eu tinha deixado de lado. Sempre me achei insensível e distante disso. Me perguntei de novo, como já fiz mil vezes, porque eu não acredito nesse amor que vejo por aí. O de Gabriel, eu me identifico e acredito.
Acredito em um amor faminto de gardênia, intenso, idealizado e repleto de vômitos fragrantes.
Acredito em amor pra vida inteira. Me dei conta disso tudo, lendo.
O problema entre o amor e eu não é a distância física, mas a temporal.
O que eu queria deixou de existir muito antes de eu nascer.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Correio aéreo

A vida me deu um presente. Mas como não é de seu feitio dar as coisas tão fáceis, meu presente voou de volta pro ninho.
Um ninho que fica há 2561 quilômetros, aproximadamente, de onde eu estou.
Eu não pude acompanhá-lo. Mas vou mandar um recado pelos ares: eu depositei todo meu amor nas suas asas.
Assim você vai voar mais alto. E vai ficar mais forte. E logo, logo vem me buscar.
Que eu ainda tô aprendendo, mas já já eu saio do chão.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Retificação

Alinhando essa grandeza pura, continuo corrigindo-me linearmente.
Desimpeço o embaraçamento harmoniosamente, para que seja perene.
Tentando eternizar essa coroa de luz com moderação
E estabelecendo o quase perfeito efeito dessa mudança,
Retifico e reproduzo a mim mesmo.

Sinestesia

Não venha com essa desculpa de que a gente é diferente.
Só porque eu sou frio e você, quente.
Frio em excesso também queima.
E o fogo para quem já está no inferno, é refresco.
Se você quisesse, colocava meu peito em brasa. Me fazia chama, me chama, me chama.
E eu te esfriava, só pra me derreter em você, me consumir em você.
E me deixava evaporar.
Só que vieram com essa tal história de que a gente não encaixa.
E a gente acreditou.
Não ouve ninguém não, me ouça: nem me ouça.
Só me chama, me chama, me ama.

Casa das Rosas

Quando te conheci, eu tinha o cabelo bem loiro e bem longo. Você tinha olhos castanhos e tranquilos. Eu tinha a cara fechada e me fazia de insensível. Você tinha um passo calmo e uma presença que preenchia qualquer lugar. À força, me arrancou um sorriso. Delicada e espontaneamente, te entreguei meu coração.

Poema das 5 e 9 da Tarde

Amor, uma decisão parada
Cria adiante a principal dúvida
Que colabora fazendo do próximo, expulso.
Adentrando grande, saio.
Componho lembrando que metade da noite sempre preciso estar diferente,
Mais insinuante, desde o início da rival.
Nada de guerras.
Não sei acabar com climas previstos,
Revanche talvez que a calma defende.
Que sempre expira evitando dores, para sempre parar.

Não de imediato realmente,
Visto que possa anteontem ter sido o começo
Bem limpo de precisão,
Sendo roubado por anos
No total vermelho.
Já nada mais devo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

As portas da felicidade

[Sequência de um texto publicado há muito tempo atrás, "Entrevista com o Destino".]


Andava por um longo, escuro e úmido corredor subterrâneo. Cada passo dado ecoava pelo espaço, fazendo um barulho de jeans encharcado. Estava com água até os tornozelos, mas não se importava. Olhava em volta de si o ambiente tão pouco... confortável.
Era um grande túnel com pouca iluminação. Parecia um esgoto urbano, porém, certo detalhes denunciavam que era algo mais complexo do que isso: ao longo das paredes haviam várias portas, idênticas, com um metro de distância uma da outra. Elas continuavam, sem fim, de ambos os lados até algum espaço que não era possível enxergar, pois mesmo ao olhar para trás ou para frente a paisagem era a mesma e terminava em um ponto escuro.
-Ainda não estou vendo a luz no fim do túnel... - brincou a Jornalista, que andava em um ritmo constante e despreocupado. A mão direta carregava no bolso do casaco, mas na esquerda havia uma coleira, que seguia até o chão, onde estava preso um Coração.
De quando em quando o Coração apontava euforicamente para uma das portas e puxava com força; mas sua guia o freava e o aproximava mais para si. Então o Coração desanimava-se e continuava andando lado a lado com sua dona, que mais uma vez havia se encontrado com o Destino.
-Vai continuar fazendo isso mesmo?
-O quê?
-Carregar seu coração numa coleira.
-Sim.
-O lugar dele não é aí.
-Assim é mais fácil controlar.
-O lugar dele é aqui.- A estranha figura, que caminhava com ela desde o início da jornada colocou a mão do lado esquerdo do peito da moça, onde havia uma sutil cicatriz em forma de fechadura.
-Mas machuca. E ele vai poder mandar em mim. Não suporto quando fazem isso. - Ela revirou os olhos.
-Não é desse modo que se resolvem as coisas. Não dói arriscar. Na verdade ele sente coisas que você nem imagina.
-Deixa assim. Minha cabeça funciona melhor sendo soberana em suas decisões, sem nada nem ninguém para atrapalhar.
-Você pode estar deixando para trás tantas oportunidades que te fariam tão bem... Você não pode continuar fazendo isso: ignorando e fechando as suas oportunidades, suas portas da felicidade!
-Como ele pode saber o que é bom para mim? Não foi assim antes.
-Machucaram você, não foi? - Houve silêncio enquanto andaram alguns metros. - Olhe como ele está, sedento de carinho!
O Destino pronunciou essas palavras enquanto o Coração rodeava sua dona e prendia suas pernas na corda da coleira. Houveram protestos:
-Pare com isso, ora, não consigo me mexer!
-Ele quer você.
-Ele já é meu!
-Mas você age como se ele não existisse. Tente... Por favor.
-Me dê um bom motivo.
Ele sorriu, aquele sorriso que a aquecia e a fazia desacreditar de todas as coisas racionais que conhecia.
-Eu sei o que eu estou falando.
Ela deu um suspiro e soltou a coleira. Então o Coração saiu em disparada, parando alguns segundo em algumas portas. Como um foguete, percorreu vários metros do túnel sem fim até parar em uma porta especifica, mas externamente como todas a outras.
O Destino e ela correram e chegaram ofegantes até o Coração, que dava pulos como há muito tempo não dava. Só de vê-lo assim, a Jornalista sentia-se diferente, mas não admitiria naquele momento.
-E então?- Ele perguntou, sorrindo.
-Obrigada. Mais uma vez.
Com receio ela colocou a mão na maçaneta e girou, lentamente. Uma forte luz saiu por uma fresta e conforme a porta era aberta a intensidade aumentava mais e mais...
Quando foi totalmente aberta, a luz ofuscou os olhos da nossa Jornalista. Mesmo assim, ela deu o primeiro passo através dela.
Afinal, como poderia saber se é bom sem experimentar?

sábado, 26 de março de 2011

Branco (I)

Quem nunca entrou em pânico ao ver uma folha em branco e tentar preenchê-la sem sucesso, não sabe o que é o sofrimento de um escritor.
Mas afinal o que significa mais não são os não significados sempre escondidos?
As entrelinhas, que simplesmente mostram a realidade?
E todo o infinito dessa brancura não serve para nos mostrar realmente para que serve tudo isto?
Para nada.